quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Ojuara é resistência


  Reprodução do Instagram (@ojuara9k)

Que a música brega, em especial o bregafunk, dominou o cenário da música local não dá para negar, mas essa ascensão do ritmo é bastante recente, datando meados de 2017 para cá, quando a classe média acadêmica começou a voltar seus olhares para o estudo do ritmo ou seu consumo em locais elitizados e higienizados, onde quem viu o ritmo nascer e crescer, provavelmente, não tem acesso.

Na contramão desse fenômeno recente estão os produtores de eventos da música periférica, que, resistindo à toda opressão e preconceito, organizam festas que misturam o funk de galera, o rap e o brega, observando e estimulando a formação do bregafunk, que surge, justamente, da mistura entre vários ritmos taxados como marginais. Um desses produtores foi e é Juan, mais conhecido como Ojuara, que desde 2016 criou seu próprio coletivo de bregafunk, a 9K, além de estar envolvido na cena periférica desde 2015, sendo, também, responsável por alavancar e dá oportunidade a artistas locais que hoje são conhecidos em âmbito nacional, a exemplo dos rappers Diomedes Chinaski e Luiz Lins.

Com cerca de cinco anos no desenvolvimento de seus projetos, Ojuara fez muitos contatos e ganhou respeito na cena underground recifense, chegando a levar suas festas a espaços, até então, nunca imaginados, como foi o caso de uma das edições do Baile de Favela ter sido realizada no Espaço Almirante do Catamarã e na sequência no Baile Perfumado, casas habitualmente frequentadas por um público mais “seleto”. O Baile de Favela é conhecido por trazer para o estado, com valores acessíveis, artistas como Vandal de Verdade, MV Bill, ADL, Kmilla do CDD, além de dar oportunidade para nomes do rap local mostrarem seus trabalhos.

Para além de todas as 12 edições do Baile de Favela, Juan também é responsável por tornar rotineira a realização de festas semanais, agregando vários ritmos periféricos na discotecagem de DJs residentes das mais diversas periferias da RMR, proporcionando a esses jovens outras possibilidades e perspectivas profissionais. Porém, em Agosto de 2018 todo esse trabalho e sonho foi interrompido.

Enquanto fazia a reposição de ingressos em uma das lojas com a qual havia  fechado para a venda do 12º Baile de Favela, Ojuara foi surpreendido por uma operação da Polícia Civil, que havia recebido uma denúncia anônima sobre o comércio de drogas no local. Por não fazer ideia do que se tratava, ele permaneceu no local, onde foi encontrada uma quantidade de entorpecentes e acabou responsabilizado pelo comércio, enquanto o dono e seus funcionários fugiram, se apresentando à polícia somente ao fim do período de flagrante. Juan segue preso desde então, com sua família e amigos realizando festas/bailes para que tenham condições financeiras de bancar seu processo e sua vida na prisão - ao contrário do que muitos pensam, estar preso custa caro financeira e psicologicamente às famílias e aos detentos.

Ojuara aguarda há seis meses pelo julgamento de um crime que não cometeu. Sem suporte psicológico, sem previsão de saída, sem previsão de ser julgado. Sua vida dentro do Centro de Observação e Triagem Everardo Luna (Cotel) é incerta, assim como a de tantos outros detentos, sendo eles culpados ou não. Juan é inocente, porém, pobre e “favelado”, é o preso perfeito para que o sistema judiciário deixe lá dentro e esqueça de sua existência, mas Juan não será esquecido por aqueles que apoiam sua causa, por aqueles que foram, de alguma forma, ajudados por seu trabalho nas ruas.

Na verdade, nenhum preso deveria ser esquecido, todos deveriam ser lembrados e tratados com dignidade, mas a realidade é cruel para aqueles que não fazem parte de um grupo com domínio das riquezas do país, pois enquanto senador tem helicóptero apreendido com quilos e mais quilos de cocaína, um inocente tem sua liberdade caçada, seus trabalhos e sonhos interrompidos e deixa uma cena cultural momentaneamente órfã.

Libertem Ojuara!
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