quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Nada Ficou no Lugar 1: OQuadro, Mahmundi e Johnny Hooker


OQuadro deu nova vida à crítica racial de Negros. (Foto: Divulgação/YouTube)
Na próxima sexta-feira (15), será disponibilizada a terceira e última etapa de Nada Ficou no Lugar, projeto com novos nomes do cenário musical para revisitar a carreira de Adriana Calcanhotto. Então, vamos rever todas as etapas do projeto, começando hoje, por Nada Ficou no Lugar Parte 1. O projeto produzido pela própria Adriana, teve a primeira parte lançada ainda em dezembro com Mentiras (Johnny Hooker), Negros (OQuadro), Vambora (Priscila Tossan), Âmbar (Ava Rocha), Cariocas (Mahmundi) e Por Que Você Faz Cinema? (Rubel).

Nada Ficou no Lugar foi pensado para trazer um contraste de interpretações. Coordenando o projeto, Adriana Calcanhotto sempre declarou querer ver leituras diferentes das que ela deu às letras. A cantora inclusive, declarou, algumas vezes, esperar um "desrespeito" ao que ela fez. Pelo visto, ela conseguiu o melhor desrespeito que poderia se querer. O projeto foi dividido em três partes com seis músicas cada. As partes são divididas em três EPs de duas músicas.

Abrindo o primeiro EP, o pernambucano Johnny Hooker dá vida a Mentiras, música da qual foi tirado o título do projeto, Nada Ficou no Lugar. Hooker traz uma interpretação bastante pessoal e emotiva. A sonoridade da nova versão intensifica a letra de Mentiras, com uma dor melancólica bem perceptível. O crescimento dos acordes, com toque eletrônicos e de cordas, também potencializa a emoção na música. A revisita a Mentiras escancara a personalidade de Hooker, mas sem se sobrepor à sonoridade original de Calcanhotto.

A banda baiana OQuadro reviveu Negros, crítica racial muito bem construída por Adriana no início da década de 90. Nada poderia ser mair coerente que a escolha de uma banda de rap para interpretar uma crítica ao racismo. O ritmo, bastante identificado com temáticas políticas e de resistência, casou perfeitamente com Negros. A temporalidade que a discussão racial vem tomando também engrandece a faixa, que, de tão encaixada, parece ter sido feita para ser assim, um rap. A versão ganhou um novo significado e uma nova sonoridade que engrandeceram absurdamente a obra de Calcanhotto.

No segundo - e pior - EP, outro clássico revisitado foi Vambora, pela carioca Priscila Tossan, participante da última edição do reality The Voice. Enquanto a maioria das outras faixas escancaram personalidade, Tossan exaure toda a que existe em Vambora. Cada estrofe foi destroçada e reagrupada em um esquema 2-3-2-3 de versos, que mais parece aleatório. A sonoridade calma e sem nenhum tipo de crescimento é repetida durante toda a música, tanto nos tons de fundo, quanto na voz de Priscila. Além de tudo isso, pôr o refrão como só mais uma estrofe, ajuda a tirar qualquer traço de personalidade da música.

A outra faixa desse EP é Âmbar, conhecida na voz de Maria Bethânia, dessa vez interpretada por Ava Rocha. A carioca conseguiu o inesperado, trazer ainda mais melancolia a uma das músicas mais melancólicas de Adriana. A nova versão é mais lenta que a original e tem uma dor cortante nas notas, assim como na original, porém beira o chato às vezes. A principal diferença entre as duas versões é a presença que Ava coloca dentro da música, apresentando uma obra bem mais imposta que a original.


No último EP da primeira parte do projeto, a carioca Mahmundi cantou Cariocas. A versão, assim como a de Mentiras, remete à versão de Adriana, mas com traços de personalidade de engrandecem a interpretação. Mahmundi traz uma interpretação muito mais leve e divertida. O suingue trazido na nova versão conversa muito com a letra e seu ode ao jeito carioca de ser. A interpretação consegue captar um ar tropical, de veraneio. Pode-se fazer uma compreensão de que a versão de Adriana é a visão de alguém de fora sobre os cariocas, enquanto Mahmundi traz a visão do Rio sobre eles mesmos.

Por Que Você Faz Cinema? foi a faixa escolhida para ser interpretada pelo carioca Rubel. A nova versão é a própria definição de experimental. Os acordes mudam constantemente, variando de um leve violão até uma batida eletrônica mais intensa. A versão original já é uma música completamente experimental e peculiar, mas nada próximo à de Rubel. O resultado final é excessivamente peculiar e confuso.


Ao fim, a primeira parte do projeto tem acertos e erros. A versão de Negros, d'OQuadro é tão acertada que faz esquecer a versão original por alguns momentos. Vambora por Priscila Tossan é tão errônea que causa o mesmo efeito. Fato é que o projeto se inicia bem, além dos baianos, Hooker e Mahmundi encaixam perfeitamente e rejuvenecem a obra de Adriana Calcanhotto, que prova, mais uma vez, sua estrela.

Leia a crítica da Parte 2, que teve a participação de Baco, Alice Caymmi, ÀTTØØXXÁ e Mãeana

Confira abaixo uma playlist especial que preparamos com as versões originais das músicas do Nada Ficou no Lugar Parte 1.

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