terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

K-poc: performances desviantes no k-pop em Pernambuco


Eventos de cultura pop já são uma certeza no calendário da cidade do Recife. Muito mais do que um mero local para reunião de fãs dos animes, jogos e outras produções pop orientais — como é retratado superficialmente pela mídia local — esses eventos são o palco de movimentos culturais nos mais diversos sentidos e, dentre eles, destacam-se as produções de sentido que surgem nos concursos cover de pop sul-coreano (K-pop).
Glamour Dance Team, grupo cover sediado em Recife-PE
Reprodução / Instagram


A milhares de quilômetros da península coreana, jovens pernambucanos protagonizam um movimento de apropriação e subversão do K-pop. O que se vê em cena nos palcos locais são jovens negros e pardos, LGBTTQIA+, gordos e periféricos. São corpos e identidades que destoam daquelas que protagonizam os videoclipes pop sul-coreanos, nos quais há um prezo por corpos magros, de traços finos e pele clara.

Esses corpos desviantes performam com maestria as complexas coreografias do K-pop e abrem espaço para pensar as potencialidades de seus atos de ruptura com as normatividades sul-coreana e brasileira.

O K-pop é, essencialmente, um gênero cosmopolita. Diferente de sua contraparte japonesa, o pop sul-coreano busca agregar valores comuns aos demais países asiáticos ,ao mesmo tempo que opera estratégias de promoção do soft power sul-coreano. Pode-se dizer que o K-pop é a commodity da Coréia do Sul que ao invés de exportar produtos eletrônicos, como faz o Japão, exporta cultura e, de brinde, estende sua influência sobre outros países.

Por outro lado, o K-pop media informações do Ocidente para a Ásia, apontam Krystal Cortez e Afonso de Albuquerque, pesquisadores em comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF). Afinal, o K-pop se enraíza e sustenta num solo que foi preparado pela entrada do Rap no país e, não à toa, ainda há uma grande presença do rap nas músicas e videoclipes, o que nos permite pensar o caminho inverso, pensar a presença do rap como uma forma de agenciamento do K-pop para o Ocidente.

A fofura é levada muito a sério nessa indústria que, em 2018, acumulava o valor de US$ 5 bilhões, segundo a Vox. E não somente as músicas, mas também os próprios idols (como são chamados os artistas do K-pop) são produzidos em massa através de intensos programas de trainee desde tenra idade. Canto, dança e línguas estrangeiras são ensinadas aos jovens que sonham debutar (estrear, na gíria k-popper), mas o repertório de atos performáticos não para por aí.

Aegyo. Esse é o termo que abarca o amplo repertório de atos fofos realizados pelos idols, seja gesticulando para formar um coração com a ponta dos dedos ou abrindo um grande sorriso com os olhos cerrados. Entretanto, em meio a essa performance de fofura, paira a regra da solteirice: para manter os fãs cativos é preciso que eles acreditem na chance de se apaixonarem por seus ídolos. Nos grupos femininos (girlgroups) é comum que sejam adicionadas pitadas de sensualidade à fórmula aegyo, construindo uma performance de fofura sensual com toques problemáticos de infantilização, a exemplo do Twice, um girlgroup que mantém desde sua estreia um repertório de músicas e videoclipes sobre a insegurança de ser uma jovem garota diante do primeiro amor, enquanto alterna as vozes fofas com movimentos sensuais..

Esse pacote ainda inclui estereótipos de gênero sob a égide da cis-heterosexualidade. Embora fenômenos como “masculinidade suave” tenham surgido, ainda operam com força significativa os ditames normativos.


O grupo Black Unicorn reúne em sua atual formação pessoas negras, gordas e transgênero

Passos significativos no sentido da diversidade foram dados em 2018 com o sucesso de Holland, um idol assumidamente gay, e com o clipe de Heart Attack, do girlgroup LOONA, no qual a integrante Chuu passa todo o vídeo perseguindo e nutrindo uma paixonite pela sua colega, Yves, até o derradeiro momento em que ela delira estar num encontro com a outra garota. Ainda assim, esse são atos pequenos dentro da rígida cultura patriarcal sul-coreana.

A cena K-pop do Recife é um espaço de tensionamentos entre esses corpos e identidades “desviantes” e o rígido pop sul-coreano. A tensão se mostra em vários momentos, desde quando grupos de meninos “se montam” com perucas, saias e blusas cropped para dançar uma coreografia sexy do AFTERSCHOOL ou quando um grupo de meninas sobe ao palco trajando casacos, jaquetas e calças largas para apresentarem seu cover do BTS até a presença significativa de pessoas transgênero (binárias e não-binárias) nesse meio.

Para além das subversões de gênero, há também um protagonismo de corpos negros e gordos, que vão de encontro ao corpo estabelecido como padrão na Coreia do Sul, onde mulheres são taxadas de obesa se ultrapassarem os 50kg e os ídolos chegam a se sentirem culpados quando não estão usando maquiagem para clarear a pele.


Stage Zero, grupo formado somente por mulheres, todas fora do padrão estético sul-coreano

O nicho K-popper recifense, significativamente queer e não-branco, vai de encontro a uma outra comunidade que frequenta esse eventos: os otakus. Embora talvez não sejam maioria, é significativo o número de otakus que carregam um discurso LGBTfóbico e racista, alguns inclusive exaltando figuras públicas conhecidas por esse tipo de discurso preconceituoso.

Para entender os eventos de cultura pop como um espaço de tensionamentos políticos, é preciso observar que no mesmo palco que se apresenta um “humorista” LGBTfóbico, se apresentam grupos de jovens LGBT que, de maneira consciente ou não, rompem os limites de gênero. Mas essas relações não são maniqueístas, afinal, também existem k-poppers conservadores e otakus progressistas.
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