sábado, 2 de fevereiro de 2019

22 anos sem Chico Science: o legado de um cronista do Recife


Músico pernambucano nos deixou no carnaval de 1997 após sofrer acidente de carro no Complexo de Salgadinho. (Crédito: Agência Brasil)

Poucos músicos foram tão importantes para representar o Recife em sua época de atividade quanto Chico Science. Durante os anos 1990, Francisco de Assis França, juntamente com a Nação Zumbi contribuiu para narrar as mazelas sociais que estavam presentes no contexto da cidade, além de recolocar a Veneza Brasileira no radar da produção cultural do país.

Os anos 1990 na cidade do Recife se caracterizaram por ser uma época de distúrbios sociais bastante evidentes. Em um momento como o que vivemos hoje, em que as estatísticas da violência urbana no Recife passam a disparar, tal qual na década de 90, pode-se traçar um paralelo entre a crise que havia naquela época e a realidade em que vivemos hoje. Devido a uma grave crise econômica, a qual não se via desde o início do plano Real, em 1994, as taxas de desemprego e violência urbana cresceram de modo bastante proeminente.

A cidade do Recife na década de 1990 apresentava inúmeros problemas que a tornavam um cenário bastante hostil a seus moradores. O local possuía uma desigualdade social que segregava uma massa desfavorecida em bairros pobres, daqueles que eram os descendentes da “aristocracia açucareira pernambucana” encastelados em Casa Forte e dos empresários confortavelmente sediados na beira-mar de Boa Viagem. A juventude tinha pouquíssimas opções de lazer e acesso à cultura, já que mesmo sendo berço de artistas como Alceu Valença e Manuel Bandeira, Recife que sempre foi um importante pólo cultural do país, estava com a voz abafada durante a década de 1980, devido ao destaque dado pela mídia que estava enfocando produções musicais das regiões sul e sudeste.

Essas informações foram levadas em conta para que a Organização das Nações Unidas em estudo sobre a qualidade de vida nos grandes centros urbanos do planeta, publicado nos anos 90, classificasse o Recife como a quarta pior cidade do mundo para se viver.

A partir disso, Francisco de Assis França Caldas Brandão, ou simplesmente, Chico Science, inspirado na biodiversidade típica da Veneza Brasileira, incorporou a sua musicalidade uma batida que misturava ritmos tradicionais, como maracatu, ciranda e coco, com guitarra elétrica, batidas eletrônicas e a crítica social do rap - e percebeu que aquilo deveria ser patrimônio de todos, como forma de demonstrar que a pluralidade ambiental do Recife deveria inspirar o cenário cultural, para que esse pudesse alcançar o mundo.

Durante a breve primeira parte a carreira do grupo (1994-1997), foram lançados dois álbuns, “Da lama ao caos” (1994) e o “Afrociberdelia” (1996). E em ambos pode ser verificada a necessidade de discutir aspectos sobre a péssima condição de vida da população menos abastada da cidade do Recife. Com letras fortes e uma poderosa mistura de ritmos, eles mantinham Pernambuco debaixo dos pés, mas a mente na imensidão do mundo.

O grupo apresentou como característica utilização de letras que contavam muito da realidade do povo recifense. Servindo assim para dar novamente posição de prestígio ao Recife no mapa cultural do Brasil e do mundo, posição que acabou por perder devido ao sufocamento cultural que ocorrera durante os anos 1980, devido ao privilegio dado a mídia a produção artística do eixo Rio de Janeiro - São Paulo.

Essa mudança no paradigma musical no Recife influenciou a formação de muitas outras bandas. Pela primeira vez em muito tempo, a música popular brasileira não era feita apenas pela classe média “esclarecida” proveniente das universidades. E sim, os verdadeiros habitantes de uma cidade, em contato com aquilo que ela podia oferecer de melhor e de pior aos seus cidadãos. Além disso, a cena musical recifense passa a proporcionar o encontro entre os mais diversos ritmos, estéticas e estilos dentro do caldeirão multicultural efervescente em que se tornara a cidade.

Mesmo com a morte de Chico em 2 de fevereiro de 1997, a Nação Zumbi continuou sendo o principal expoente do movimento manguebeat. O grupo contribuiu para inserir Recife e a música pernambucana no debate sobre globalização, exatamente por fomentar a fusão de ritmos e o encontro da música e da cultura popular com elementos vindos de outras culturas, permitindo o afloramento de uma discussão em torno das identidades locais, em que a cidade do Recife passa a ser reconhecida como uma metrópole latino-americana, com todos os seus hibridismos. Inaugurou também uma linguagem musical que deu espaços para hibridismos na música pernambucana, incentivando centenas de jovens a formar a sua própria banda, o que desencadeou o aparecimento de novas bandas na cena da música recifense.





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