sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Islamismo: história, desafios e política


por Inácio Celestino

(Foto: Comunidade Islâmica/divulgação)
O Islamismo, para muitas pessoas, ainda é uma religião enigmática. Muitos relacionam a religião dos muçulmanos com atentados terroristas, extremismo religioso e com grupos radicais como o ISIS, Al-Qaeda, Boko Haram, Hamas e entre outros. Estereótipo reforçado pelos ocidentais, a religião é taxada como um grupo de bárbaros. No entanto, a religião tem histórias de resistência, dogmas e adopta o lema “Islam é paz”. Nesta reportagem, saberás um pouco da história do Islamismo, de como foi a sua inserção no Brasil e um resumo sobre a história do Centro Islâmico do Recife – CIR. Além disso, conta-se a trajetória de um brasileiro, criado no catolicismo, que reverteu-se à fé islâmica.

Breve história do Islamismo

O islamismo é uma religião monoteísta e seu surgimento é atribuído ao século VII d.C. Quem segue o islão é chamado de muçulmano. O muçulmano acredita em Allah e obedece aos ensinamentos de Maomé, ou Muḥammad, sendo esse, segundo as escrituras islâmicas, o último profeta, que foi precedido por Jesus, Moisés, Davi, Jacob, Isaac, Ismael e Abraão. Ou seja, ao contrário do que muitos julgam, o islão não rejeita as escrituras judaicas e cristãs, mas, segundo seguidores da religião, as complementa. A junção e edição de alguns escritos judaico-cristãos e as ditas revelações de Allah a Muḥammad chama-se Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos. Além do Alcorão, os muçulmanos baseiam a sua fé no Hadith, que é o livro dos pensamentos e ações do profeta Maomé; e na Sunnah, que se configura nas regras de conduta a serem seguidas pelos muçulmanos.

A religião islâmica é dividida em duas vertentes: os sunitas, (representam maioria islâmica em sua totalidade), que acreditam que Abu Bakr e os três califas que o seguiram vieram dar continuidade aos preceitos de Maomé; e os xiitas (representam a minoria em sua totalidade e a mais tradicionalista), que acreditam que Ali, sobrinho de Maomé, deu continuidade aos ensinamentos do profeta.

Os muçulmanos têm, por obrigação, de realizar cinco preces diariamente em horário pré-definido, em posição voltada à Meca, que são: na madrugada, ao meio-dia, à tarde, ao pôr do sol e à noite; realizar doações aos mais necessitados; durante o Ramadan, uma das festividades da religião, deve-se jejuar entre o amanhecer e o entardecer; e, a obrigação mais conhecida por todos: todo muçulmano, se tiver condições, deve peregrinar pelo menos uma vez na vida à cidade de Meca - localizada na Arábia Saudita.

Islamismo no Brasil

Uma Mussala Paulista (Foto: Portões de Viena/divulgação)
O Islamismo embarcou no Brasil junto com as caravelas de Pedro Álvares Cabral, a partir do ano de 1500. Segundo o site Mesquita Brasil, os primeiros islâmicos em terras tupiniquins eram navegadores e comerciantes árabes.

Em outro momento, devido ao trabalho escravo na colônia portuguesa, diversos negros muçulmanos foram traficados e trazidos ao Brasil, ação que ampliou o número de seguidores de Allah na terra de Santa Cruz.

O povo muçulmano tem um histórico de luta e de rebeliões em solo brasileiro. A primeira de que se tem registro é a Rebelião de Libertação, a qual consistiu em uma batalha em defesa do Quilombo dos Palmares entre os anos de 1693 a 1694. Depois, tem-se a Revolta dos Muçulmanos Haussás, em 1807, e a Revolta dos Malês, de 1835, ambas na Bahia. Esta última é a mais conhecida e consistiu em um movimento de escravos de origem muçulmana que defendiam propostas radicais no que se refere à libertação dos escravos africanos, mas só os que compartilhassem da fé islâmica.

Pouco tempo depois, o crescimento do Islão no Brasil deu-se a partir da imigração de libaneses e sírios durante a Primeira Guerra Mundial. Esses grupos concentraram-se majoritariamente na cidade de São Paulo. Esse feito que acarretou na criação da Sociedade de Bem-Estar Palestina Muçulmana, na cidade em questão. Com a chegada de muçulmanos de outras nacionalidades, o nome da instituição foi alterado apenas para Sociedade do Bem-Estar Muçulmano.

Islamismo no Recife

Não se sabe ao certo qual a porcentagem de muçulmanos em território pernambucano, mas, segundo o último Censo de 2010, 1,8% da população pernambucana dizia-se praticante de outras religiões (as quais não englobam o catolicismo, o protestantismo, o espiritismo, as religiões afro-brasileiras e as de origem asiática), logo, os muçulmanos estão inseridos nos 1,8%, mas não são a totalidade. Em nível de curiosidade, segundo o Censo de 2010, há 35.167 seguidores do islamismo em todo o Brasil.


Centro islâmico do Recife (Foto: CIR/divulgação)
O centro Islâmico do Recife – CIR é o local onde os muçulmanos residentes na capital Pernambucana e adjacências concentram-se para realizar orações e celebrar festividades religiosas. Pela ausência de mesquitas na região Nordeste, os muçulmanos recorrem aos centros islâmicos e às mussalas. O CIR é de origem sunita. O local, que fica na Rua da Glória, no bairro da Boa Vista, foi implantado em 1993 com o nome de Centro Cultural Islâmico do Recife, passando a se chamar em 1997 de Centro Islâmico do Recife. O Centro foi criado com o objetivo de ser um local para a realização de orações, casamentos, funerais, festividades e estudos das escrituras sagradas do Islão.

Em uma conversa com o construtor naval brasileiro e revertido ao Islão Alberto Bret, falou-se sobre Islamismo no Brasil, atualidades e curiosidades.

Foto: Inácio Celestino

Desafios de ser muçulmano no Brasil

Barreiras enfrentadas por muçulmanos no Recife.

Há dificuldades de adaptação, como o calendário religioso. Oficialmente, no Brasil, usa-se o calendário gregoriano, que reserva o domingo como dia de descanso. Para os muçulmanos, o dia sagrado é a sexta-feira. Logo, muitos seguidores de Allah não podem comparecer às orações conjuntas, festividades e etc devido ao trabalho, aos estudos e a outras obrigações do quotidiano. As obrigações também dificultam a realização das orações nos horários pré-definidos pela religião. No caso da impossibilidade, se pode realizar todas as cinco orações, com média de dez minutos cada, à noite, mas é importante que tente-se fazer no horário. As mulheres sofrem devido à vestimenta tradicional da religião, como o uso do Hijab (significa véu ou cobertura. Ele cobre a cabeça e o pescoço, deixando o rosto livre). Há postos de trabalho que não permitem o uso do véu, o que constrange algumas das muçulmanas.

Preconceito

Há certa preocupação por parte das pessoas. Pois, quando se ouve sobre o islamismo, o senso comum leva o pensamento para os terroristas e os extremistas, essa é a imagem desenhada pela mídia. É comum perceber a associação do muçulmano com a imagem da guerra e da repressão.

A comunidade islâmica sofre preconceito. No entanto, as muçulmanas são o maior alvo dos preconceituosos. Isso explica-se pela vestimenta delas. A maioria das muçulmanas brasileiras usa o Hijab, poucas utilizam outros tipos de véus, como o Chador. A vestimenta delas chama a atenção de boa parte da população brasileira, que, segundo o último Censo, continua sendo de maioria cristã. Palavras ofensivas como “Mulher-bomba”, “Esposa do Bin Laden” e palavras de ordem como “Volte para o seu país” são corriqueiras na vida das muçulmanas.

Reversão

Um pouco de como e do porquê de Alberto ter se revertido ao islão.

Nós acreditamos que cada pessoa nasce predestinada. Deus determina, ainda no ventre da mãe, o destino de cada pessoa. Isto inclui quantos anos de vida se terá, qual profissão será exercida, se a pessoa casará, se terá filhos e, por fim, a religião também. Quando chega o momento certo, Deus começa a guiar o indivíduo para o seu destino religioso. Eu sou de família católica e nunca cogitei deixar o cristianismo e entrar em outra religiosa. À época, eu não conhecia a religião islâmica, só ouvia falar. Achava-a algo exótico. Imaginava as pirâmides do Egito, um homem andando em cima de um camelo e coisas parecidas (risos). O meu primeiro contato com a religião islâmica foi através do livro Otelo, o Mouro de Veneza, de William Shakespeare. Há uma passagem no livro que diz mais ou menos assim “Muçulmano é aquele cujas mãos e cuja língua ninguém deve temer”. Eu achei estranho, pois eu sempre achei que o ser humano, quando não mente, só fala a metade da verdade. Então, pensei: Que povo é esse em que se pode confiar? Comecei a pesquisar em livros ocidentais, mas tudo o que eu lia era que o islamismo pautava-se na guerra, na luta, na opressão, na violência contra o diferente e que propagou-se através da espada. Eu parei e cheguei à conclusão de que a religião não prestava. Depois de um tempo, eu estava a trabalhar em um hotel e chegou um grupo de marinheiros malaios. O navio deles tinha sofrido um problema e eles precisavam passar alguns dias em terra. E eles eram muçulmanos. Eu comecei a observar a prática deles. Eram gentis, tratavam todos bem. Eu via a disciplina em se cumprir os horários das orações. Percebi que o que eu tinha lido sobre aquele povo não tinha nada a ver com a realidade. Depois, voltei a despertar interesse sobre a religião. Tempo depois, encontrei um casal de muçulmanos na rua e me surpreendi, pois eu não sabia que havia muçulmanos no Recife. Depois, passei em frente ao Centro islâmico do Recife, pois há muitos armazéns ao redor e eu precisava comprar madeira, e vi a placa. O meu interesse foi despertado. Regressei um outro dia, conversei com as pessoas e peguei alguns livros de autores orientais. Comecei a ler e vi no que realmente consistia a religião. Até que me convenci de que era aquilo que queria para mim e acabei me revertendo.

Conselhos dados aos que interessam-se pela religião e dirigem-se ao centro islâmico do Recife

Damos orientação e tentamos saber o que a pessoa realmente quer, pois, às vezes, as pessoas chegam aqui e não sabem o que a religião é e nem o que querer. Se a pessoa já vem sabendo dos conceitos, das práticas e com o coração cheio de certeza, fazemos a reversão e ensinamos a praticar a religião. Dando o suporte para que ela possa exercer. Os primeiros passos a se dar dentro da religião é a busca pelo conhecimento.

Islamismo hoje e novos métodos de divulgação

Utilização de redes sociais e métodos didáticos e irreverentes para a propagação do islamismo.

É bom e, ao mesmo tempo, não é. Pois há muitas coisas boas, mas também há a presença de muitas coisas falsas. Deve-se sempre checar as fontes, pois há pessoas mal intencionadas que escrevem inverdades sobre a prática religiosa. Deve-se ter cuidado, pois há muitas pessoas nas redes sociais que se dizem muçulmanas, mas não são. Utilizam apenas de fachada para ensinar errado, lucrar em cima de quem quer conhecer e entre outras coisas. O melhor a se fazer é procurar um local e conversar com as pessoas da comunidade.

Sheik Rodrigo Álves (Foto: Islamboy/divulgação)
Atualmente, a internet é um dos impulsionadores na propagação do islamismo no Brasil e no aumento de seguidores. O Sheik brasileiro mais famoso é o Sheik gaúcho Rodrigo Alves, que utiliza a internet para pregar o Islão de forma didática. Dessa forma, ele tornou-se uma espécie de “Sheik pop”.

De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), entre os anos de 2001 e 2011, o número de convertidos ao Islã teve crescimento de 25% no Brasil.

Apesar disso, algumas entidades não concordam com o número publicado pelo IBGE. A Federação Islâmica Brasileira aponta a existência de 1,5 milhão de seguidores do Islão no Brasil. Em todo o País, estima-se que existam 80 centros de Islão e cerca de 50 mesquitas (As mussalas não são contabilizadas).

Conjuntura sócio-política

(Foto: reprodução/Facebook)
O que a eleição de Jair Bolsonaro representa para a comunidade islâmica?

Estamos em um momento complicado no que se refere ao cenário político do país. Como dizem os cristãos, nos encontramos entre a cruz e a espada. Ou se morre pela espada ou crucificado. O povo está dividido. Alguns acham que o governo de direita será a salvação; outros acham que esse governo será fascista e que diminuirá o direito da minoria. Pois a imagem que esse governo passa é uma imagem machista, racista, homofóbica. Tudo o que a sociedade vem combatendo ao longo dos anos, através das ONGs e dos Direitos Humanos. Vivemos em um dilema. O povo quer sair da situação de insegurança política, devido à prática dos políticos, como corrupção e desvio de verba pública. O povo quer fugir disso, mas também teme um governo de extrema-direita, um governo que ameaça direitos e que é mais militarizado. Mesmo entre a comunidade islâmica há uma divisão de pensamento sobre o presidente eleito. Pois alguns muçulmanos compartilham da mesma linha ideológica dele, outros divergem. Só o tempo dirá como será daqui para frente.

Futuro da comunidade islâmica no governo Bolsonaro.

Há a preocupação de que apoiadores do Bolsonaro atentem contra a comunidade islâmica, embora eu ache que ele não prejudicará a comunidade. No entanto, ainda na pré-campanha, já se tinha a ideia de restrição à migração, e vemos que isso está relacionado à migração de pessoas de origem árabe/muçulmana. Bolsonaro segue muito a linha do Trump. Um perfil machista, racista, homofóbico e contra as sociedades muçulmanas. O Trump, nos EUA, restringiu a entrada de muçulmanos no país. Alguns governos europeus também, ultranacionalistas. Contra a globalização e entre outras coisas. Existe a preocupação, mas teremos de esperar o que irá acontecer.

Curiosidade: Você sabia por que é mais comum, mesmo entre os muçulmanos não árabes, chamar Deus de Allah?

Allah é uma palavra diferente em outras línguas. Em português, a palavra deus sofre variações. Deus é masculino singular, deusa é feminino singular e deuses plural. A palavra Allah não tem variação, não tem feminino e nem plural. Ou seja, é o termo mais adequado para representar a imagem que os muçulmanos têm de Deus.
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