quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Elis: a minissérie não faz jus ao filme


Andreia Horta voltou ao papel de Elis Regina.
Como vem se tornando costume nos últimos anos, a Rede Globo colocou entre seus especiais de início de ano uma produção de sucesso da Globo Filmes. "Elis", filme de Hugo Prata, estreou nos cinemas em 2016, recebendo três Kikitos (Festival de Gramado) e nove Troféus Grande Otelo (Grande Prêmio do Cinema Brasileiro). "Elis: Viver é melhor que sonhar" foi transmitida em quatro episódios na Rede Globo entre 08 e 11 de janeiro e não se restringiu a um corte simples do filme.

As novas inserções tornaram a história mais explicada, porém, mais confusa. A narrativa ficcional é quase toda original do filme, poucas cenas assim foram acrescentadas. A obra, porém, recebeu traços de documentário, com a inserção de declarações e entrevistas de Elis e de outras pessoas. Houve também elementos de mock documentary (falso documentário), gênero raro nas produções globais. Toda a história esteve guiada por uma entrevista encenada de Elis, vivida por Andreia Horta. Essa construção acabou sendo, por vezes, um grande mosaico que não se encaixava.

Nas inserções dramatúrgicas, a produção acertou em cheio. As ausências de Tom Jobim e Rita Lee eram duas lacunas do filme e Sérgio Guizé e Mel Lisboa, apesar de pequenas participações, não deixaram a desejar nos papeis. As tramas, porém ainda deixam de fora muito da história de Elis, o que é uma perda. Tomar o fio condutor da série como a encenação de uma grande entrevista dada por Elis poderia ter sido um grande acerto, mas não conversa com as declarações de outras pessoas postas na minissérie, não ficando claro o motivo dos formatos diferentes estarem juntos.

Em formato de entrevista, Andreia, no papel de Elis, conduziu a nova narrativa.
Na realidade, os trechos documentais foram um grande excesso. As falas de pessoas próximas a Elis pouco contribuíam na história, os trechos narrados irritavam mais que informavam. O cúmulo do absurdo foram os momentos nos quais o narrador e os entrevistados saíram totalmente do foco na cantora para falar por longos minutos sobre o que foi a Jovem Guarda e como era a Ditadura. Vale lembrar, ainda, que as entrevistas e declarações usadas eram das mais distintas épocas, variando de imagens do Nelson Motta jovem a uma entrevista de Caetano Veloso no Lady Night.

As inserções de eventos reais que menos incomodavam eram, obviamente, as da própria Elis, que, junto àquela entrevista encenada com a Andreia Horta, já bastariam para contextualizar e dar um ar de realidade à minissérie. Mas nem isso é apenas flores. Além de demorar até o episódio final para deixar claro que a entrevista encenada foi feita a partir de falas reais, a atuação de Andreia não está mal, mas não é a mesma que levou o Kikito, o Grande Otelo, o APCA e o Luso-Brasileiro de melhor atriz.

Um dos maiores acertos da versão televisiva de Elis pode ser a abertura e parte da trilha sonora. Pode soar como crítica velada, mas não é. A melhor versão de Aprendendo a Jogar aliada a imagens da grandiosa interpretação de Andreia Horta criam um belo imagético nos poucos segundos de abertura da minissérie. Além disso, a entrada de canções que marcaram a carreira de Elis, como Trem Azul, Águas de Março, Doce de Pimenta e Tatuagem, aliadas ao que já vem da obra original apenas engrandecem o trabalho. Por outro lado, interpretação de Velha Roupa Colorida, nos créditos poderia ter sido mantida, pelo menos, até o refrão. O diabo está nos detalhes, dizem.


Participação de Caetano Veloso no Lady Night entrou na minissérie sem muita lógica.

O produto final de "Elis: Viver é melhor que sonhar", como obra independente, é um pouco confuso, mas talvez até seja aceitável, porém, não faz jus ao filme. A minissérie peca na veia documental forçada que parece ter sido totalmente retalhada no contexto. Vale, pelo menos, pela trilha sonora.
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