terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Clubber Recifancy


Recife sempre foi um local de vanguarda artística na história do Brasil, a exemplo do Mangue Beat, Brega, Brega-funk e o Rap pernambucano. Em meio à intensa efervescência de produções culturais neste rico solo banhado pelas águas do mangue, desponta um movimento de renascença das culturas ballroom e clubber, uma tendência que acontece não exclusivamente nesse local, mas que encontra na Região Metropolitana da capital pernambucana um espaço, no mínimo, interessante.
GLITCH. Créditos: Pixabay


Para quem frequenta o circuito alternativo noturno do Recife já teve ter se deparado com alguma performance de artistas produzidas de maneira extravagante que surgem do nada e atraem toda a atenção da festa com seus atos, sejam eles meramente visuais (a partir de suas vestimentas, acessórios e maquiagem) ou performáticos, tanto no campo da atuação como da dança.

Essas figuras, que dominam a noite e chocam o público a cada nova performance, tiveram seu primeiro auge na década de 1980, época na qual os bailes (do inglês, “balls”) e concursos de drag queen aconteciam a todo vapor na cena LGBT negra e latina do Harlem, em Nova Iorque. Foi nesse cenário que surgiram a dança voguing e a cultura clubber, dentro da qual se encontram as Club Kids, uma categoria de drag queens voltadas para a bizarrice e que muito influenciam a estética das artistas atuais.

A renascença clubber, no Recife, ganha corpo a partir de 2015, momento em que houve o boom midiático do reality show RuPaul’s Drag Race. Embora não seja uma regra, é, minimamente, curioso o volume de casos de pessoas que decidiram fazer drag queen ou outras formas de arte performática na cena alternativa LGBT local.

Os contornos dessa nova cena rompem as paredes dos tradicionais points e passam a ocupar outros espaços, a exemplo da multiartista Transalien, que distorce os contornos de gênero e da própria arte e chegou a abrir o show da rapper norteamericana Azealia Banks, durante sua passagem pelo Recife como parte da Festival NO AR Coquetel Molotov em 2018.

Outro espaço importante são as festas alternativas, a exemplo da EXTASIA, que abrigam os corpos e identidades que fogem às normas, principalmente as pessoas negras, trans e travestis que destoam e são, até mesmo, excluídas pelo público gay, branco e cis-normativo (que enxergam como legítimas somete as identidades impostar ao nascimento a partir de uma lógica suposta natural fundamentada na genitália) frequentadores das casas noturnas mais tradicionais da cidade.

O ano de 2019 se inicia com uma série de oportunidades para que as produtoras culturais locais abracem de vez a cena clubber recifancy, mas sem interferir em seu modus operandi, permitindo que essas artistas transgressoras deem continuidade a sua arte de ruptura das construções.
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