terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Caminhos



(Autor: Desconhecido)












Hoje é 18 de fevereiro, minhas aulas na faculdade estão começando e eu já estou me programando para esse novo período. Está bem quente, acho que uns 30 graus, não tenho certeza, eu estou na parada esperando há mais de meia hora e provavelmente vou chegar atrasada - para variar. Eu olho para frente e vejo Mayara, uma colega de infância, decido cumprimentá-la. Faz bastante tempo que não a vejo, pois nos afastamos, mas percebo que ela está diferente. Começamos o diálogo e no meio da conversa, Mayara me revela que está grávida do seu segundo filho. Eu gelei, mas tratei de suavizar minha expressão, não quero que ela se sinta mal. Enquanto conversávamos a frase “grávida do meu segundo filho” não saia da minha mente. Mayara cresceu comigo, nós brincávamos juntas na rua, sonhávamos em sermos médicas e trabalharmos juntas, mesmo depois eu optando pelo jornalismo. Nós tínhamos tudo planejado e agora tudo foi embora, ao menos para ela. Durante a conversa, Mayara me confessou que estava preocupada, pois o pai do bebê queria abandoná-la e ela não tinha para onde ir. Quando engravidou do primeiro filho, aos 13, a mãe a pôs para fora de casa e disse que não criaria filho de ninguém. O pai dela gasta todo o dinheiro no bar e apoiou a mãe dela na decisão, afirmando que não sustentaria “filho de vagabundo”. Nesse momento eu vejo as lágrimas rodeando seus olhos, vejo o desespero na sua voz, mas ela respira e me dá um sorriso sem graça. Eu tento amenizar a situação sorrindo, mas é difícil… Ver minha amiga nessa situação machuca muito…

O ônibus chega e eu subo com ela. Em meio a viagem Mayara me pergunta o que eu faço da vida e eu lhe conto as aventuras dos últimos anos. A entrada na faculdade, os milhares de textos, as noites sem dormir, as festas e as novas amizades. Confesso a ela que a universidade não é nada do que eu sonhei, porém eu nunca estive tão feliz. Mayara me dá um meio sorriso e diz que está contente que uma de nós conseguiu manter o planejado. Eu gelo de novo. Em meio aos meus pensamentos eu a questiono sobre o que a levou a iniciar sua vida sexual tão cedo e, honestamente, me arrependi de ter perguntado. Mayara me contou que ser virgem é “fora de moda”, que todas as amigas dela, na época, já transavam. Pressão das amigas e do namorado foi o combo da desgraça para Mayara. Ela sempre estudou em escolas municipais onde só tinha aula duas vezes na semana, no máximo. Nayara nunca teve uma estrutura familiar, nada que desse a ela uma expectativa de vida melhor. Ela não sabia que existem anticoncepcionais e mal sabia usar uma camisinha. Resultado? Um menino chamado Enzo. Depois do nascimento do menino, as outras amigas de Mayara foram aparecendo grávidas. Algumas foram abandonadas pelos pais das crianças e pelas famílias, outras tentaram abortar e quase morreram, outras morreram em clínicas clandestinas.

A cada história que ela me contava eu ficava mais apavorada. Todas essas meninas foram criadas no mesmo lugar que eu, tem idade semelhante a minha ou até mais jovens, por que elas e não eu? Enfim chegamos ao terminal, Mayara está a caminho do obstetra, fará uma ultrassom. Eu lhe dou um abraço e desejo força a ela para lidar com tudo isso. Ela me diz que queria ter conseguido cumprir a parte dela do trato, mas infelizmente não pode. Com lágrimas nos olhos eu sigo meu caminho e ela o seu. Durante a minha longa viagem de ida a faculdade eu me questiono sobre a situação dela. “Poderia ser eu” ronda a minha cabeça mesmo com a confusão do terminal... Coloco meus fones e sigo meu percurso comum. No caminho me dou conta por que Mayara está grávida do segundo filho e eu estou me graduando. Eu estudei em boas escolas, tive incentivo da minha mãe para ter um futuro melhor, para ir a faculdade, já ela teve incentivo para transar com 13 anos e não pensar muito no amanhã, só no agora... Eu tive oportunidades e privilégios que ela nunca sonhou. Eu sou a Mayara que conseguiu realizar seus sonhos e que está correndo atrás de um futuro diferente do que vê todos os dias na favela onde mora.


...

A história de Mayara não termina por aqui. Nós nos encontraríamos mais vezes, viveríamos muitas coisas, juntas ou não. Faz tempo desde que tivemos esse encontro, muita coisa mudou… Mas isso fica para depois.


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