terça-feira, 8 de janeiro de 2019

A Olinda que não é Olinda


“Ó linda situação para se construir uma vila”. Foi essa a frase dita por Duarte Coelho no ano de 1535, onde é hoje a Cidade Alta, que fundou a cidade que conhecemos por Olinda. Elevada a categoria de vila em março de 1537, a cidade foi a primeira capital de Pernambuco. Anos mais tarde, Olinda foi sitiada e incendiada pelos holandeses, que, após isso, modificaram sua sede para Recife. Depois da expulsão dos holandeses, em 1654, os portugueses retomam o poder e Olinda volta a ser a capital do estado; mas perde o título para Recife, em 1837, mesmo tendo sido elevada à cidade - em 1676.

A cidade ainda preserva essa aparência colonial, com suas ladeiras, ruas de pedras e notáveis exemplos da arquitetura dos séculos XVI ao XIX, como o Mosteiro de São Bento, Basílica e as casas; fazendo do turismo uma forma de lucro. Reconhecida como patrimônio mundial pela UNESCO, em 1982. Cerca de um terço da área de Olinda é tombada.

Por ser tombado, o centro histórico olindense é uma das áreas mais valorizadas da cidade, movimentando o contingente de 3,2 milhões de pessoas no carnaval de 2018 - gerando um fluxo financeiro de aproximadamente 280 milhões de reais. Porém, esta cidade monumental, patrimônio mundial e geradora de riquezas a partir da quarta-feira de cinzas volta ao seu estado natural, uma cidade dormitório. Seu centro que durante o carnaval é palco de diversas atividades culturais se restringe a um público elitizado e carrocrata, os foliões locais perdem o acesso ao centro e voltam a ser “marginais” nos bairros periféricos à Cidade Alta, não podendo ter a oportunidade de “olindar” mesmo já estando em Olinda.

A primeira dificuldade de acesso até a Cidade Alta já começa no transporte. Dos 26 terminais integrados de ônibus que abarcam a região metropolitana apenas 3 mantém linhas que dão acesso até a Praça do Carmo, principal entrada ao Alto da Sé, T.I. PE-15, T.I. Rio Doce e T.I. Xambá, todos em Olinda. Conforme vai anoitecendo o número de alternativas para quem depende do transporte público para voltar para casa vai diminuindo, limitando o tempo de aproveitamento do local por quem mora nos bairros mais distantes e, de certa forma, tornando o acesso aos eventos mais restrito. Problema facilmente contornável para quem tem carro e usa-o para chegar até o centro de Olinda.

Outro problema enfrentado por Olinda é o mal aproveitamento do espaço urbano da cidade. Durante o carnaval todos os polos e atividades que contam com o apoio da prefeitura se centralizam nesse ambiente de acesso limitado que é a Cidade Alta, acaba que todo o contingente de pessoas que transitam por Olinda, movimentam-se na verdade por um espaço pequeno e delimitado da cidade, único que há investimento da prefeitura. Dos 41,7 km² de extensão de Olinda, apenas uma porção minúscula em comparação com a área total é utilizada para eventos culturais antes e durante o carnaval. Se olharmos o site da Prefeitura de Olinda, na aba de eventos culturais, só podemos ver eventos referentes ao carnaval e as prévias, não existe qualquer anúncio de atividades fora desse período, e ao analisar o local de cada evento (foto abaixo) vemos que eles se restringem a uma área muito pequena em comparação ao território da cidade, deixando os bairros mais periféricos longe dessa programação.

Foto: Google Maps
Se durante o carnaval o acesso a eventos culturais já é difícil para os moradores de Olinda, fora desse período a dificuldade se agrava. A prefeitura não toma iniciativas referentes a essa questão, não aproveita a área da cidade. Em contrapartida a essa centralização cultural na cidade, o coletivo Beco Cultural surge tentando democratizar o acesso à cultura e o direito à cidade aos moradores de Olinda. Constituído em 2010 e com sede no bairro de Ouro Preto, o coletivo busca, desde a sua fundação, criar ações culturais nas áreas periféricas da cidade. Dentre as ações promovidas pelo coletivo criado pelo cientista político Pedro Moura destaca-se o “Agosto do Beco Cultural”, festival de música que acontece na Travessa Atlântico, popularmente conhecida como Beco Cultural. A travessa, anteriormente, era conhecida como “Beco da maconha”, porém o coletivo ajudou a retirar o termo pejorativo da rua. Promovendo oficinas, eventos culturais num geral e afins, o coletivo também disponibiliza em sua sede uma biblioteca para os moradores da cidade.

O descaso da prefeitura com incentivo à descentralização da cidade ficou evidente quando, no último ano, o evento Agosto do Beco Cultural teve de mudar o local poucos dias antes de acontecer, o que seria no dia 25, último sábado do mês. Proibidos pela gestão da cidade de sediar o evento no Beco Cultural localizado na Travessa Atlântico, o evento mudou-se às pressas para sua sede no antigo CSU de Ouro Preto, cerca de 700 metros do local preparado para o evento. Em nota de repúdio via Facebook, o Coletivo diz: “talvez, por se tratar do nosso homenageado Erasto Vasconcelos, um artista com fortes ligações com a cultura de matrizes africanas, possa ter sido o real motivo para tantas intransigências, além de, um possível preconceito sócio cultural com o espaço”. O Coletivo alega como possibilidade uma dificultação intencional motivada por preconceito à religiões de matrizes africanas e ainda critica a gestão da cidade pelo descaso com o acesso à cultura para todos da cidade: “é importante destacar ainda que o tratamento dado pela dita secretaria [de Trânsito Controle Urbano e Ambiental] dialoga com o fato de não compreender a necessidade de implantar uma política cultural de descentralização dos eventos culturais fora do eixo da Cidade Alta”.

Em entrevistas concedidas a nós, os representantes do coletivo Pedro Moura e Igor Belchior, responderam algumas perguntas em relação à centralização dos eventos culturais no centro histórico de Olinda, democratização do acesso à cultura e direito à cidade. Em suas falas, ambos salientaram a importância simbólica do centro histórico.

ENTREVISTA

Um terço do território olindense é tombado e por conta disso a maiorias dos eventos culturais acontecem lá no sítio histórico. Nesse contexto de centralização, como surgiu o coletivo e como ocorre a organização dos eventos?


Pedro: Inicialmente, é bom deixar claro que existe um simbolismo muito grande com essa questão do que é o centro de Olinda. Esse simbolismo carrega tanta coisa que você quando falou “lá” (sítio histórico), nós ainda estamos na cidade de Olinda. Nesse sentido, o coletivo Beco Cultural surge também para tentar desmistificar esse espaço territorial de Olinda, transbordando a questão do sítio histórico. E aí, nós escolhemos Ouro Preto, como sede, justamente porque é um bairro que está adjacência da cidade de Olinda e a gente procura descentralizar as atividades culturais em direção a periferia, que é onde nós temos a maior atuação.

Igor: Tem um detalhe interessante que é bem simbólico, que a gente até costuma brincar, é que quando um jovem pega um ônibus ali em Ouro Preto/Rio Doce ele diz “eu vou pra Olinda”, mas só que ele já está em Olinda, né? Nós temos esse vício de linguagem de achar que o sítio histórico de Olinda é toda Olinda ou outros bairros não pertencem a Olinda, então tem essa questão toda de o sítio histórico estar numa redoma de vidro. Se para gente que mora em Ouro Preto já é assim, imagina quem mora no Córrego do Abacaxi, em Passarinho, Águas Compridas, o pessoal acha que vai para Olinda de fato quando se dirige ao sítio histórico, acha que é outra cidade outra questão. Então, existe um aparato muito grande, como uma barreira enorme entre o sítio histórico e os bairros de Olinda.

Vocês falaram agora há pouco da dificuldade que vocês enfrentaram para organizar a oitava edição do Agosto do Beco Cultural, vocês acham que essa dificuldade atrapalhou de alguma forma o andamento do evento em questão de público?

Pedro: Eu acho que atrapalhou porque a gente vinha há cerca de 60 dias fazendo a divulgação, preparando o ambiente… Porque você sabe, quando você for fazer um evento desses, um evento de mídia espontânea, a gente não paga para o G1 lançar que vai ter atividade nossa, a gente não paga ao Jornal do Commercio, a ninguém para fazer isso, existem eventos que o povo paga pra fazer, nós não. E aí o que acontece? A gente começa a se movimentar na cidade, esses veículos de comunicação também acompanham essa movimentação e acabou que alguns blogs também tinham divulgado o local, o espaço. A gente divulgou muito, a gente fez cartaz, algumas peças de divulgação.

Igor: A gente teve menos de 18 horas para escolher outro local. Então, era impossível ser um evento como fosse lá - Travessa Atlântico -, em relação ao público, mas mesmo assim ainda deu um público legal. Foi o evento que a gente teve mais dificuldade com certeza de mobilização de pessoas, contudo, a gente esperava que inclusive ia dar menos gente lá.

Igor: Apesar disso, que muita gente nos procurou depois, durante o evento, alegando que aqui - CSU - tem uma infraestrutura melhor que a gente realizando no meio da rua, porque na sede a gente tem um palco, tem camarim, a gente tem um espaço grande.

Pedro: Mas para nós era importante lá, por que? Porque é a origem de tudo, inclusive nós quando assumimos a sede aqui, nós assumimos como um termo de cessão de uso do espaço que era o antigo CSU, o Centro Social Urbano, e agora é sede do Coletivo Beco Cultural. Nossa vontade maior é tá fazendo todos os anos lá na rua, não sei como é que vai ser daqui pra frente. Mas respondendo, teve um público surpreendente eu acho, além de chegar o povo daqui de Ouro Preto veio muita gente também que eu acho que se mobilizou com a questão do fato político.

Igor: O evento cresceu tanto que a princípio, nos três primeiros anos, só quem vinha era o povo de Ouro Preto, mesmo público, e foi aumentando para todos os bairros de Olinda, hoje o Agosto do Beco atende pessoas de Recife, Paulista, gente de Jaboatão que já vem aqui, de Abreu e lima, de Igarassu. Então já é um evento consolidado.

Os comerciantes de Ouro Preto se sentiram lesados com o deslocamento do evento, certo? Como vocês enxergam isso?

Pedro: Os comerciantes têm um hábito de “tá” movimentando sua economia naquele período ali, quando chega agosto começa todo mundo a se mexer, o cara que comprava duas caixas de cerveja no fim de semana compra dez, aí o outro que comprava duas pipocas compra cem, ou seja, o micro comércio cria essa expectativa.

Igor: A negativa da prefeitura não prejudicou apenas a entidade do Coletivo Beco Cultural que realiza o Agosto do Beco, mas prejudicou o público, os comerciantes e os amantes da cultura em geral. Então não foi apenas por uma visão econômica, foi por uma visão cultural também, então quando você aborta um evento desse, você está prejudicando muita gente que está desempregada que queria botar um espetinho para vender, queria botar uma cerveja pra vender, o pessoal dos bares lá, dos restaurantes que iam faturar alguma coisa também ficaram sem poder ajudar.

* * * 

Ainda sobre o prejuízo causado aos comerciantes, entrevistamos Francisco Silva, ou Seu Francisco, de 71 anos. Ele é comerciante há 14 anos no bairro de Ouro Preto mantendo um bar no Beco Cultural, quando perguntado sobre o quanto ele foi lesado pela mudança repentina do evento ele respondeu que: “muito, eu investi e não deu retorno, prejudicou muito, eu só não, todos os comerciantes daqui”. Seu Francisco disse não entender o motivo pelo qual o evento foi barrado, Seu Francisco era mais um dos comerciantes que viam na movimentação extra que o evento em seu bairro trazia um modo de movimentar a economia local.

PREFEITURA

Tentamos entrar em contato com a Secretaria de Trânsito, Controle Urbano e Ambiental, que não permitiu o acontecimento do Agosto do Beco Cultural na Travessa Atlântico, para ter um posicionamento da administração da cidade sobre a centralização dos eventos e a motivação do cancelamento, mas não tivemos sucesso.
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