terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Tu é só artista mesmo ou tem um trabalho de verdade?


Reprodução / Internet
Meu nome é Roseta Granada, trabalho como drag queen há cerca de dois anos, ou pelo menos eu tento. A vida anda bastante difícil para quem trabalha com arte, principalmente para gente como eu, que faz e tenta viver de uma arte diferente da que tá no livro, no Louvre.

Num dia desses fui chamada pra um trabalho. O rapaz no telefone dizia que seria uma apresentação rápida, coisa de no máximo dez minutos, só pra dar close na festa que ele tava promovendo. Do jeito que eu tava lisa, aceitei na hora. Mais tarde, eu lembro de acertar os detalhes do pagamento e tal, não é o que o boyzinho pegou ar quando cobrei R$ 200?!

- Você quer me dar um golpe é? R$ 200 só por dez minutos de show?!

- Vai vi, depois tu me diz!

Desliguei na cara, do jeito que eu tava arretada. Você que tá lendo deve tá é me achando doida e, talvez, até concorde com o rapaz, mas veja bem. Eu vivo do que faço. Muita gente tem uma profissão que escolhe por amor, mesmo com todas as dificuldades, e é assim pra minha arte também. Só pra você ter uma ideia eu gasto quase quatro horas me montando pra um show. Fora todo o gasto com maquiagem, roupa, deslocamento e, claro, as contas de casa pra pagar, né. Diag que meu nome já tá no SPC e tudo.

Isso sem contar o tempo gasto com tudo. Não se aprende técnicas de maquiagem e dança do dia pra noite. É muito treino, disposição e resiliência pra seguir em frente e conseguir fazer o show. E isso vale pra todo mundo que trabalha com arte. Uma amiga minha que é dançarina de frevo e danças urbanas diz que só consegue se manter por causa dos turistas que costumam pagar pra ver o povo dançando frevo, mas também não é nenhum luxo. A gata vive no sufoco, correndo atrás de ônibus pra sair dos cafundó da região metropolitana até o centro da capital, onde ela faz os bicos pra se manter e depois correr pra boate dançar voguing a troco de entrada e bebidas grátis.

Sempre vai ter um engraçadinho pra dizer: “por que tu não faz algo que dá dinheiro”.

É luta, mas é algo pelo qual vale a pena lutar. Eu já não consigo me ver trabalhando com outra que não levando animação para os lugares que passo, assim como minha amiga que encontra sentido na vida incendiando a pista de dança na noite. E o pior é que ninguém chega num médico e tenta barganhar o preço da consulta ou manda ele fazer outra coisa mais rentável. Assim como a medicina, a arte é essencial à vida, não somente à vida do artista que vive de seu trabalho, mas também à vida do público que encontra significado na vida por meio da arte.

Agora vou indo, tenho que sair correndo, senão eu perco o ônibus pra ir à boate. Dessa vez consegui um trabalho digno, vai dar até pra negociar e parcelar as dívidas acumuladas com a última peruca que comprei.
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