sábado, 1 de dezembro de 2018

Se tudo der errado, apenas dance


Foto: (Reprodução/Capa do álbum)

A habilidade de Madonna em se renovar e se adaptar ao mercado a diferenciou de suas contemporâneas. Foi o que a consagrou como a soberana do pop. Mas nem tudo são flores no reino de sua majestade. Em alguns momentos dos seus longos anos de carreira, Madonna se viu diante de uma mídia e de um público nada satisfeitos com certos trabalhos seus e teve que dar dois passos para trás para seguir em frente. E assim foi em 2005, quando lançou o disco “Confessions On A Dancefloor”.

A saga do “Confessions” começa ainda em 2003, quando Madonna lançou seu disco “American Life”. Após alguns anos morando na Europa, seu envolvimento com a Kabbalah e a guerra no Iraque foram as fontes de inspiração para um de seus mais politizados discos, criticando a cultura das celebridades (veja só!), o individualismo e o militarismo americano e utilizando uma estética que remete à contracultura dos anos 60, Madonna foi fundo na ferida. O tiro, porém, saiu pela culatra e, em uns Estados Unidos que ainda sofriam os efeitos dos atentados de 11 de setembro, a cantora foi duramente criticada e acusada de antipatriota. Todo esse mal estar transformou-se no disco menos vendido de sua carreira. As coisas não iam muito bem para ela em sua terra natal.

Mais uma vez Madonna precisava se reinventar, urgentemente. Não que isso fosse uma novidade para a rainha do pop. Durante seus mais de 20 anos de carreira ela soube, sem muita dificuldade, pegar sonoridades e estéticas pouco conhecidas e transportá-las ao mainstream. Foi assim com o “Vogue” na primeira metade dos anos 90. Levando a cultura gay periférica de Nova York para os palcos de todo o mundo. 

A escolha de sua majestade foi deixar a história seguir, trocando a sonoridade e estética dos anos 60 pela da década seguinte. Madonna ressurge das cinzas com um disco que atualiza a disco music dos anos 70 com a ajuda dos sintetizadores dos anos 2000. Um visual que remete a Jane Fonda e Farrah Fawcett. Videoclipes coloridos e com coreografias pegajosas.

Madonna parece querer fazer os Estados Unidos, e o mundo, esquecerem aquela “baboseira” sobre guerras e entrar num momento de alegria e comemoração. Mas nem tanto. Trazer de volta um período de glória e esplendor da sociedade americana: essa é sua estratégia para voltar ao topo das paradas de sucesso. E consegue.

“Hung Up”, canção usada como carro-chefe do disco faz bem esse trabalho já que ao contrário de “American Life”, single de abertura do disco anterior, essa alcançou o número #1 em mais de 20 países. Usando samples de “Gimme! Gimme! Gimme! (A Man After Midnight)” do grupo sueco ABBA, sensação da disco music nos anos 70, Madonna consegue atingir logo de cara seu propósito. A música possui uma atmosfera de explosão dance capaz de fazer até a mais tímida das pessoas cair na dança. Madonna também faz bom uso do autotune nos vocais dessa e de outras canções do disco, dando um ar ainda mais atual para a produção.

“Confessions” tem composições que passeiam por temas como amor, desilusão, autoconhecimento, êxtase e realização pessoal. Um apanhado de temas que concedem ao disco um ecletismo próprio para ganhar os mais diversos públicos. Os temas explicitamente políticos do “American Life” dão lugar a críticas mais sutis, às vezes quase imperceptíveis. O álbum ainda ganhou uma versão non-stop que dá maior união às músicas e sutileza a troca entre as faixas.

“Sorry” está lá para servir de recado para aquele cara babaca que te magoou e agora não importa o quanto ele se desculpe, você apenas não quer saber! Donna Summer poderia muito bem ter seus vocais usados para cantar a psicodélica “Future Lovers”. “I Love New York” é a declaração de amor ufanista de Madonna para a cidade que lhe rendeu os momentos mais marcantes de sua vida. Ainda podemos destacar “Jump” e sua mensagem sobre vencer obstáculos. “Isaac” nos lembra uma canção religiosa importada do Oriente Médio. A rainha do pop fecha o disco com uma música que deixa clara todas as tentativas para derrubá-la: ela irá dar a volta por cima, gostem disso ou não (“Like It or Not”).

“Confessions on a Dancefloor” marca mais um ressurgimento de Madonna. Um maravilhoso, criativo e dançante ressurgimento. Deixe para lá os erros do passado e todas as críticas que recebeu. Você precisa deste momento para curtir de forma despreocupada. Abra suas asas, solte suas feras. Mas não esqueça que dançar também é um ato político!
Comentários

0 comentários :

Postar um comentário