quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

O apartamento


Fonte: Pixabay
São 13h35 de um sábado qualquer, estou indo no apartamento de um amigo buscar um livro que pedi emprestado. Chego no portão e aperto a campainha, entro sem problemas. Meio desajeitado e nervoso digo ao porteiro para onde estou indo e o que vim fazer no prédio, na tentativa de diminuir o peso na minha consciência, mas não consigo ficar tranquilo nesse espaço.

Desde que me entendo por gente meu pai trabalha como eletricista e zelador em condomínios da Zona Norte do Recife. Vez ou outra ele me levava consigo para o trabalho, algo que no começo era legal, foi ali que tive meu primeiro contato com um elevador, mas à medida que fui crescendo aquele espaço se tornava desconfortável e assim o é até hoje.

Minha pele clara e eu me visto como um “jovem descolado” de classe média, o que me confere uma série de privilégios, mas, ainda assim, me sinto desconfortável quando tenho de entrar num edifício, seja pelo motivo que for. Me acostumei a usar o elevador de serviço, a andar de cabeça baixa e a chamar os moradores de doutor (a).

Suor frio, mãos tremendo, olhadelas rápidas para todos os lados. Entrar num desses prédios é um grande exercício de autocontrole para não sair correndo diante do medo de me taxarem como um invasor, afinal, é assim que me sinto naquele espaço, um estranho que não tem o direito de estar ali.

Entro no elevador social e tento recuperar a calma. O apartamento do meu amigo acaba se tornando um refúgio temporário. Pego o livro e saio do prédio quase que correndo, literalmente, atrás do “meu” ônibus e para longe daquele lugar.
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