segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Melhores do Ano 2018


O ano de 2018 foi bem movimentado no campo da música. Muitos álbuns incríveis foram lançados e nessa reta final antes da virada do ano, decidimos apontar alguns dos trabalhos que nos chamaram a atenção ao longo desse ano.

Kali Uchis – Isolation
Por Lúcio Souza
Transitando entre a languidez e a sensualidade, Kali Uchis nos convida a deitar e curtir o momento a partir das músicas que compõem seu segundo álbum de estúdio, Isolation (2018). A cantora nos transporta para uma Miami latino-americana que poderia cair na caricatice dos clichês já tão explorados, mas, felizmente, o álbum passeia com maestria pelas sonoridades latinas conferindo-lhe um caráter muito autêntico.
Kali Uchis - After The Storm ft. Tyler, The Creator, Boosty Collins (2018)
Créditos: Reprodução


Nascida no estado da Virgínia, nos Estados Unidos, Kali Uchis realiza um movimento de retorno à Colômbia, país de origem da sua família, em algumas faixas do álbum, a exemplo da sequência existente entre as quatro primeiras faixas que podem ser pensadas como uma breve viagem de ida e vinda (um “bate-volta”, de certa forma) à essas memórias e sensações que a artista tenta resgatar.

E é pensando nessa chave de latinidade que se encontra um elemento bastante presente na música latina: as músicas sobre traição, fim de relacionamento e amargura ou a “dor de corno”, como diríamos aqui em Pernambuco. A sequência Tyrant, Dead To Me e Nuestro Planeta exploram com maestria esses aspectos, transmitindo toda a energia das sensações que orbitam a proposta do álbum.

A última parte do álbum fala mais sobre recomeços e superação, como já diz a faixa After The Storm: se precisa de um herói, apenas olhe no espelho, ninguém vai vir lhe salvar, então você tem de se salvar.

Isolation é sobre as memórias de Kali Uchis e, embora a cantora tenha papel central na obra, conta com diversas participações na construção da letras, produção e interpretação das músicas. Estão presentes no álbum nomes como Gorillaz, Jorja Smith, BadBadNotGood e Tyler, The Creator.


Sunmi - Warning
Por Lúcio Souza
Warning, extended play (EP) da Sunmi, é sem dúvidas um dos trabalhos mais originais, ousados e autênticos no cenário musical sul coreano em 2018. Com somente cinco faixas, em sua versão disponível no Spotify, o EP fecha o ciclo de estreia da Sunmi como artista solo e livre das amarras das grandes produtores. Os singles Gashina e Heroine antecedem o EP e anunciava de certa forma o tom dos rumos que estavam sendo tomados pela Sunmi.

Logo na primeira faixa, ADDICT, curiosamente cantada em inglês, Sunmi passa o tempo todo repetindo a pergunta “quem comanda o show?”, para no fim responder: eu! É significativo da nova fase em que a artista se encontra, desfrutando de uma maior liberdade de criação.
Sunmi - Siren (2018)
Créditos: Reprodução



O carro-chefe do EP é a segunda faixa, Siren, que rendeu à Sunmi o prêmio de artista feminina do ano no MAMA (Mnet Asian Music Awards). A faixa se junta aos hits anteriores no movimento de trazer à tona essa nova imagem de uma Sunmi independente em vários sentidos, principalmente, como mulher e artista. Siren é também o terceiro ato de história passada nos dois singles anteriores, nos quais ela termina seu relacionamento, em Heroine, e agora está avisando seu ex o quanto é perigosa, algo que dentro do contexto apresentado no EP pode ser pensado também como um movimento de defesa da Sunmi que agora tem liberdade e consciência do mundo ao seu redor.

Warning passeia pelas sonoridades que se aproximam do house e dance pop, mas nas faixas finais caminha em direção a baladas mais calmas. Destaco Black Pearl, uma faixa com batidas características do house e que têm a presença de um safoxone que contribui para a riqueza das camadas construídas ao longo da música. O EP se encerra de forma bastante melancólica com Secret Tape, faixa que se inicia justamente com o barulho de uma fita sendo colocada para tocar.


Rosalía - El Mal Querer
Por Maik Santos
Como levar um ritmo excessivamente tradicional e próprio de uma região para jovens do mundo todo? A artista espanhola Rosalía traz a resposta à essa pergunta no seu segundo e mais recente disco, El Mal Querer (2018). Unindo som, imagem, literatura e dança, a cantora não só modernizou o flamenco como também tornou-se uma alternativa para a indústria musical latina.
Rosalía
Créditos: Reprodução / Instagram

Ao longo do disco, Rosalía narra a história de um casal, desde o instante em que se apaixonam até o momento em que se separam. As composições do disco relatam momentos de paixão fugaz, ciúmes exacerbados, desilusões amorosas e libertação da figura feminina do romance.

O álbum traz uma forte referência à “Flamenca”, conto do século XIII de autor desconhecido, com cada canção sendo inspirada em um capítulo da obra. E para deixar mais evidente essa inspiração a artista juntou ao nome de cada faixa o nome do capítulo correspondente.

Além disso, Rosalía trouxe ao disco uma forte e singular identidade sonora e visual. Ela canta com um acentuado sotaque hispânico, suprimindo algumas letras, por exemplo. Tornando difícil para que uma pessoa não familiarizada a acompanhe.

A artista também soube misturar bem o ritmo tradicional do Sul da Espanha com o R&B americano, o que pode ser apreciado na faixa “Bagda” onde ela usa samples de “Cry Me A River” de Justin Timberlake. Para dar mais solidez à essa mistura, Rosalía coloca ao fundo sons de coros gregorianos, choros, palmas, luta de espadas e gemidos.

“El Mal Querer” também se sobressai no quesito visual. Seu photoshoot traz uma clara referência ao sagrado feminino, com Rosalia servindo de elemento único em fotos que remetem a figuras sagradas, como santas católicas.

Mas, com certeza, o que mais evidencia a originalidade da artista são seus videoclipes e suas apresentações ao vivo, justamente os elementos que lhe tornaram popular na internet. Seus vídeos trazem uma profusão de cores, personagens e coreografias. No vídeo de “Pienso En Tu Mirá”, por exemplo, Rosalía é rodeada por homens armados no que pode ser entendido como um ritual, mas na verdade busca retratar o machismo e a misoginia. Em “Bagda”, música que trata de uma desilusão amorosa, vemos Rosalía lutando para não se afogar em suas próprias lágrimas, em suas próprias tristezas.

No palco Rosalía aposta em apresentações apoteóticas, executando coreografias elaboradas e acompanhada de um grande número de dançarinos. Isso a diferencia de outras artistas do espectro indie que tendem a fazer shows mais intimistas, focando mais na voz. Mas não se engane pensando que isso significa que a espanhola possui um fraco alcance vocal. Rosalía sabe dosar bem sua dança e voz, colocando-a como uma das mais promissoras performers da atualidade.

Em 2018, Rosalía surgiu como uma agradável novidade. Em um mercado latino saturado pelo reggaton, ela trouxe uma nova perspectiva de se fazer música, unindo o tradicional ao moderno. A artista também serviu bem de alternativa para uma geração millenial ávida por algo com mais profundidade e novo.

Judas Priest - Firepower
Por Yago Mendes
Em março de 2018, os vovôs do metal, encabeçados pelo cada vez mais genial, Rob Halford, lançaram seu 18º álbum de estúdio. Havia um pouco de desconfiança de parte do público do metal sobre a força que os ‘British Steels’ teriam neste retorno após quatro anos sem lançar discos e com uma sequência de trabalhos questionáveis como Nostradamus (2008) e Redeemer of Souls (2014).
Judas Priest
Crédito: Divulgação


Ao ouvir Firepower, este que vos escreve teve a certeza de que as coisas voltaram aos eixos na terra da Rainha. Soando como trabalhos épicos como o British Steel (1980), Painkiller (1990) e o Stained Class (1978), o disco de 2018 é, sem dúvida, o trabalho mais relevante do Judas desde a volta do Rob Halford, em 2005.

O disco já nasce clássico. Com o peso da experiência de Glenn Tipton (71 anos), Rob Halford (67), Ian Hill (67) e do ‘jovem’ Scott Travis (57 anos), além da jovialidade do novato Richie Faulkner (38 anos), o Judas Priest dá uma mostra de longevidade aos fãs, com a velha vontade de fazer um som que agrade a sua imensa legião de admiradores, espantando os boatos de que os vovôs estariam pensando em aposentadoria.

Cheio de pontos altos, o cd é marcado pela monstruosa performance técnica dos músicos, em especial, do eterno Glenn Tipton, que apesar do diagnóstico de Mal de Parkinson, no início de 2018, não deixa em nada a desejar aos anos dourados do conjunto. A condução da cozinha da banda (baixo e bateria) conduzida por Hill e Travis é uma aula para os jovens fãs do heavy metal que pretendem começar a tocar e bangear pelo mundo.

Com 14 faixas, o álbum é consistente do início ao fim. Com faixas marcantes, que tem enorme potencial para se tornarem clássicos como Firepower, Rising from ruins e Flame thrower, além de músicas que fazem referências a outros ritmos como Lone Wolf, que homenageia o Doom Metal e Spectre, na qual Rob Halford faz claras referências ao lendário King Diamond, o compilado é uma demonstração do poder de fogo dos ingleses, que continuam produtivos, felizes e com mais rock n’roll para dar do que nunca.

Integrantes: Rob Halford (vocal), Glenn Tipton (guitarra), Richie Faulkner (guitarra), Ian Hill (baixo), Scott Travis (bateria)

Faixas:
01. Firepower
02. Lightning Strike
03. Evil Never Dies
04. Never the Heroes
05. Necromancer
06. Children of the Sun
07. Guardians
08. Rising from Ruins
09. Flame Thrower
10. Spectre
11. Traitors Gate
12. No Surrender
13. Lone Wolf
14. Sea of Red

Greta van Fleet - Anthem of peaceful army
Por Yago Mendes
Essa é uma decisão que com certeza vai suscitar polêmica. A banda Greta van Fleet é um tema recorrente de análises de amantes de rock n’ roll e heavy metal. Com grande influência de bandas dos precursores do metal e do hard rock, como Led Zeppelin, Rush e Black Sabbath, o conjunto fundado pelos irmãos Kiszka, em Michigan, no ano de 2012 é recorrentemente acusado de copiar descaradamente suas influências.
Greta van Fleet
Créditos: Reprodução / Instagram


Surgidos em um contexto musical desfavorável - para o som que eles produzem - uma vez que o rap e o R n’ B dominam as paradas de sucesso, a banda vem trazendo as semelhanças com bandas dos anos 70 para colocar novamente o rock na discussão sobre música na atualidade.

Em outubro de 2018, lançaram seu primeiro disco de estúdio: “Anthem of peaceful army’’, que ficou em terceiro lugar no ranking da Billboard 200, com 87.000 cópias vendidas. O single atual, “When The Curtain Falls“, está no topo da parada das rádios de rock de todo o mundo.

Apesar disso, o grupo sofreu duras críticas com o lançamento do disco por jornalistas especializados. A resenha do álbum feita no Pitchfork, por exemplo, disse que eles soam artificiais como “se tivessem fumado maconha exatamente uma vez, chamado a polícia e tentado gravar um álbum do Led Zeppelin antes de se levar para a prisão por conta própria.” Acabaram recebendo a nota 1.6 de 10 possíveis, sendo uma das mais baixas dadas pelo site.

Os destaques da banda são sem dúvida a excelente condução vocal dada ao disco por Josh Kiszka, que apesar do timbre agudo e parecido com o do Robert Plant, não se limita a fazer apenas as vocalizações épicas do piloto do Zeppelin de Chumbo e o guitarrista Jake Kizska que é - na minha opinião - um dos grandes guitarristas do rock da nova geração, pois faz seus solos bem feitos, riffs encaixados e dá uma levada muito agradável ao som da banda.

O disco é permeado de músicas com riffs alucinantes e baladas. A faixa de abertura chamada “Age of Man” é um épico de seis minutos que dá um gás impressionante na audição. Se destacam também os singles “When the Curtain Falls” e “Watching Over“, com aquela pegada setentista e moderna muito bem mescladas. Na reta final, “Brave New World” aparece com um tom mais tenso e melodioso, com uma carga emocional bem presente e “Anthem” abrange bem o estilo de faixas mescladas proposto pela banda, com passagens acústicas muito bem trabalhadas, com harmonias se encaixando perfeitamente no fim da faixa.

A faixa “Lover, Leaver” aparece duas vezes, sendo a primeira é a versão liberada anteriormente, com pouco mais de três minutos de duração, a segunda fecha o álbum com o título de “Lover, Leaver (Taker, Believer)“, com seis minutos, o que a torna uma versão estendida. Ambas são muito boas, principalmente a segunda que tem harmonias muito bem encaixadas do meio para o fim.

A sensação final que a banda nos traz com seu primeiro trabalho é que o mundo precisa de muito mais Greta van Fleets. Gente nova e interessada em rock n’ roll, que levanta do sofá e faz seu som inspirada nas excelentes bandas do passado. O conjunto de Michigan é recente, os integrantes são muito jovens - o mais velho tem apenas 22 anos - e aos poucos eles vão se encontrar. Não é problema uma banda iniciar a carreira parecendo com suas principais influências, em especial, quando é algo genial como o Led Zeppelin. Ruim mesmo é parecer com o Rxxxxxt.

Integrantes: Josh Kiszka (vocal); Jake Kiszka (guitarra); Sam Kiszka (baixo); Danny Wagner (bateria)

Faixas:

01. Age of Man
02. The Cold Wind
03. When the Curtain Falls
04. Watching Over
05. Lover, Leaver
06. Youre the One
07. The New Day
08. Mountain of the Sun
09. Brave New World
10. Anthem
11. Lover, Leaver (Taker, Believer)


Diomedes Chinaski - Comunista Rico
Por Rubi Pereira
No que se refere à produção de rap, o ano de 2018 foi nada menos que insano. Nomes como Diomedes Chinaski, Djonga, BK, Drik Barbosa e Baco Exu do Blues chegaram num hype nunca antes visto no cenário do rap nacional. Em meio a tantas produções massas neste ano fica até difícil escolher só uma para apontar como “Melhor álbum de rap do ano”, a maioria dos álbuns, mixtapes e etc, foram pesados demais – do jeitinho que a gente gosta. Mas, pensando na construção do produto como todo, elegi “Comunista Rico” de João Victor, ou Diomedes Chinaski para a maioria, como o melhor do ano.
Diomedes Chinaski - Comunista Rico (2018)
Créditos: Divulgação


Lançada em junho a mixtape veio pesadíssima, trazendo vários questionamentos e lembrando a todos nós que o rap nacional não é só lovesong, a lá poesia acústica. Com várias colaborações fodas, como Djonga, Don L, Coruja BC1, Luiz Lins, Raffa Moreira, Cacife Clandestino, entre outros, o álbum tem 12 tracks e traz músicas que catucam na ferida da desigualdade, como Jovem Negro Rei, ou que nos fazem querer rebolar, como Diabinha. Comunista Rico é coerente a sua maneira e para ser compreendido, em sua maior parte, demanda tempo. No primeiro momento ela aparenta ser desconexa, principalmente se tratando de Ménage ou Câncer, mas, a meu ver, elas só mostram a versatilidade de Diomedes e como ele compõe sem “largar” a origem.

Neste álbum, Chinaski fala de si, dos seus dramas psicológicos, mas também fala de nós, negritude brasileira. Comunista Rico conversa diretamente com o/a negro/a periférico/a que sonha em melhorar de vida. O verso “Compare o conceito e o flow/ Não é só hype, nego/ São vários dias sem faltar no estúdio/ Estudo, e nem tudo cura essa dor”, da faixa que dá nome a mixtape, mostra bem isso. Para chegar aonde chegou, com um álbum reconhecido, Diomedes – assim como muitos outros rappers negros – ralou, estudou, gravou e regravou coisas e conseguiu o famoso hype.

Escolher Comunista Rico como mixtape do ano não foi fácil, como já disse antes. O Menino que Queria ser Deus também veio daquele jeitinho e merecia também. Espelho não fica atrás no quesito produto, mas Comunista Rico me lembra o porque lutar todos os dias, o porque nunca desistir. Porque essas opções não existem para nós (negros).

Comunista rico, porque riqueza de verdade é compartilhar.
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