domingo, 9 de dezembro de 2018

Definitivamente, Amar é para os fortes


Artistas que transitam entre diversas áreas das artes não são novidade. Mas o que Marcelo D2 propõe com o lançamento de Amar é Para os Fortes (AEPOF) é um produto inédito para o acervo cultural brasileiro. Álbum, filme, audionovela, trilha sonora… Todas essas definições se encaixam no novo produto do cantor, desde que não venham de forma isolada. Isso porque o que se desenvolve é um novo conceito transmídia, ainda não visto - até então - na cena mainstream da música brasileira em uma confluência de referências à carreira de D2.






Tecnicamente, AEPOF se define como um média metragem dirigido pelo próprio D2. No entanto, quem experimenta o álbum apenas nas plataformas de streaming de músicas também consegue ter entendimento da trama por conter além das músicas, os diálogos e narrações do filme. E até mesmo para quem consome as músicas de forma individual, desmembradas do álbum/roteiro/trilha sonora, a experiência sonora funciona com o mesmo êxito.

A obra conta a história do jovem carioca Sinistro, uma espécie de personagem autobiográfico, que convive diariamente com a dualidade da guerra entre o tráfico e a polícia no morro. É interpretado pelo filho de Marcelo, Stephan - que assina artisticamente como Sain. Ao longo da trajetória, Sinistro vive situações comuns a diferentes gerações, que vão de pai para filho e se perpetuam nas condições de luta de classe social das periferias do país.

Contextualizando a obra na carreira de D2, AEPOF se torna uma espécie de ‘tradução sonora’ dos posicionamentos políticos do artista e suas bandeiras de militância historicamente defendidas, como a legalização das drogas, a quebra de preconceitos contra a produção artística popular e outras questões sociais. A produção, inclusive, ganha mais destaque e importância histórica pelas atividades de Marcelo D2 nas redes sociais, ainda que esse não seja o intuito das queixas. Em seu perfil do Twitter, por exemplo, o artista interage com seus seguidores e seus críticos, seja ele um simples estagiário de jornalismo ou até mesmo o mais desavisado culturalmente Presidente da República.

“Puxar o gatilho ou não? É isso que é liberdade?”

Não faltam perguntas reflexivas e questionamentos induzidos aos consumidores da obra em trechos marcantes das letras. O que em muitos momentos se desenha como ‘monólogos’ de Sinistro também pode ser visto como uma provocação (Não mandaram educação, só mandaram a PM) e até afirmação das atitudes de D2 em seu posicionamento como agente nas lutas de classes (Não beijo a mão do patrão).

No álbum, sobram referências a momentos marcantes da vida de D2, assim como menções a diretores, roteiristas, cantores e outras obras que influenciam AEPOF. Exemplo disso é um trecho narrado do filme pernambucano Febre do Rato (que batiza uma das faixas), onde o personagem de Irandhir Santos questiona o fim da capacidade do povo de ‘espernear’, em diálogo com o coveiro Pazinho, interpretado por Matheus Nachtergaele - sentados em frente ao Cemitério do Guadalupe (Conhece?).

Por último - e não menos importante -, destaca-se ainda a sonoridade do álbum, que apresenta elementos novos na discografia de Marcelo D2. A sempre forte presença do hip-hop diminui a influência da veia boom bap e se transforma em um balanço de samba groove e até elementos do jazz.

Na faixa ‘Filho de Obá’, por exemplo - a apoteose do álbum - Sinistro chega pra ficar. Numa saudação típica dos terreiros de religiões de matrizes africanas embalada por bossa, Marcelo D2 alcança um nível de mistura sonora digna de Vinícius e Baden Powel (recomenda-se 'Canto de Xangô', gravada pela dupla). Sinistro se 'encanta', como a história de tantos orixás que alcançaram a plenitude, assim como D2 sobe de patamar artístico.

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