segunda-feira, 26 de novembro de 2018

'O Processo': uma disputa narrativa entre cinema e jornalismo


Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Ao assistir 'O Processo' de Maria Augusta Ramos, me veio à cabeça a seguinte pergunta: isso é cinema ou jornalismo? Se aceito a ideia de que é cinema penso que tudo que se passa no filme é um encenação. Se vejo o filme como jornalismo continuo tendo o pensamento sobre a encenação, considerando a exposição das pessoas à câmera e o teatro muito bem feito pelos deputados e senadores (de situação e oposição). Ver no final do filme a legenda que fala da prisão do presidente Lula me deixa ainda mais encasquetado que há uma forte dualidade nessa obra. Há uma clara disputa da narrativa do presente entre o cinema e o jornalismo.
Pré-indicado ao Oscar no início de novembro, 'O Processo' reconstitui a história do julgamento do impeachment da presidenta eleita Dilma Rousseff, cujo mandato terminaria no fim do ano. Inicialmente, o filme parece anti-cinematográfico. Parece, ao menos para mim, um belo produto jornalístico, que dá vida à tão monumental quanto alienante arquitetura modernista do Palácio do Planalto,  que se distancia da dinâmica habitual das obras que exploram o suspense político (como 'House of Cards'). Na obra, o foco está nos disfarces jurídicos e políticos que envolveu o impedimento de Dilma. Está também no cotidiano exaustivo do processo que durou 271 dias (cheios embates entre entre petistas e tucanos, ambos rodeados de aliados).
Felizmente para alguns, assistir 'O Processo' não é com passar uma tarde inteira ligado na TV Senado. Muito menos na co-irmã TV Câmara. É a partir da construção de personagens de maior destaque na obra, que a gente pode observar o aparecimento do cinematográfico no filme. No entanto, esse fenômeno não emerge apenas aí. Ele  na retórica dos senadores, nos momentos de ansiedade, tédio e pressão, na costura linha cronológica dos fatos.
'O Processo' é uma obra histórica que revela ao espectador momentos ímpares (quase inexistentes): a realização de uma autocrítica lúcida por parte de nomes importantes do Partido dos Trabalhadores, como Gleisi Hoffmann. Hoje, por pura e simples estratégia o PT abandona a posição vista no filme em favor da defesa da inocência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso há quase oito meses na carceragem da Polícia Federal no Paraná.
Nesses momentos de reflexão fortes lideranças do PT pensam e repensam sobre as políticas de governo conservadoras (implementadas, sobretudo, no governo Dilma 2), alianças espúrias e, portanto, questionáveis e o afastamento progressivo da base, com a consequente aproximação dos, outrora rechaçados, ricos e poderosos (algo que acomete não só o PT, mas grande parte da esquerda brasileira).
Assim como 'Futuro Junho' (2015), em que Maria Augusta Ramos fala de homens e mulheres de diferentes classes sociais num contexto pré-Copa do Mundo do Brasil, 'O Processo' é um documentário de observação. Produzir e publicizar um documentário sobre os acontecimentos políticos recentes é algo que a narrativa fragmentada pelos dias e meses, recheado de interrupções e intromissões da imprensa dificilmente pode nos oferecer.
Maria Augusta com 'O Processo', aparentemente, consegue romper com a tradicional forma de se fazer documentário no Brasil herdada/influenciada por Eduardo Coutinho, que se dedicava contumazmente a tornar conhecido todo o aparato fílmico. Apesar da câmera de Maria Augusta Ramos parecer distanciada das interações filmadas, apesar de se apresentar como imperceptível e invisível no espaço, uma questão tão antiga volta à tona: até onde as performances dos personagens é real e onde começa o ficcional (se é que há). Acredito que nunca saberemos a resposta. Na verdade, penso mesmo que nem precisamos saber. O importante é considerar que esse peso da mise-en-scène existe.
Claramente, 'O Processo' não tem a finalidade, nem é um registro neutro e desapaixonado dos fatos sobre o impeachment de Dilma (havemos de convir, a narrativa jornalística do processo também não foi). Respondendo à pergunta inicial, 'O Processo' é cinema e dos bons. Pode até nem ser a "verdade verdadeira" (nem precisa, pode até ser ficção, apesar de não ser apresentado assim). Mas é aquilo que temos de mais próximo do que, provavelmente, aconteceu.
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