quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Música de Protesto Brasileira


Foto: Agência Brasil
Rodas de conversa sobre uma eventual ditadura se espalham pelo país, mas, sendo ela real ou não, estamos mais perto que nunca. Estive em uma dessas rodas recentemente e admirei um comentário banal que parece reforçar a pecha de que brasileiro só é feliz por saber rir da sua própria desgraça. Abram-se aspas para um físico: “pelo menos a música vai melhorar, é mais fácil fazer música sobre tristeza e desgraça que sobre amor e coisas boas”. Ele podia muito bem estar falando sobre Pablo, o rei da sofrência, mas o tema era a MPB de protesto.

Pobre MPB de protesto, só existiu enquanto foi perseguida. Quando deixou de haver censura, deixou de haver razão para cantá-la. Em uma nova ditadura, quem seriam nossos novos Vandrés, Chicos, Caetanos, Naras, Rauls e Jobins? Quem seriam as Ritas, cantando a liberdade em meio ao conservadorismo?

No lado oposto, quem seriam os novos queridinhos da ditadura? Os “que se unem à revolução no combate à subversão”? Os Robertos que se aproveitam disso para virar reis? Os Simonals que são destruídos por isso e morrem muito depois de sua carreira já ser esquecida? As Claras que se fingem não ser ligadas à política e chegam a gravar sambas de protesto até morrer de forma suspeita?

Não sei se a chamada ‘nova MPB’ teria peito para enfrentar essa barra da mesma maneira que os decanos da música enfrentaram. A nova safra abusa do positivismo. As vozes sutis e as letras parecem mostrar que a vida é fácil e tudo se resume a amar alguém e ser feliz. Não parece difícil imaginar porque o sofrenejo e o sofrarrocha estão fazendo muito mais sucesso que o deboísmo musical.

Quanto mais eu escrevo, mais a teoria do físico parece fazer sentido. Talvez por isso que o Seu Jorge de Problema Social e Chatterton seja tão melhor que o das músicas para churrasco. Que a Maria Rita de Encontros e Despedidas e Pagu supera a sambista feliz. Que qualquer Marisa Monte é melhor que a de Ainda Bem. E, pensando bem, talvez caiba a essa geração a função de fazer a MPB de protesto.

O Nando Reis é bem a prova disso, ele ainda tem o seu rock’n’roll, e mostra um protesto fortíssimo a - basicamente tudo existente no atual cenário da - política brasileira em uma música nova. Me falaram de Rock’n’roll há poucos dias, parei para escutar logo antes de escrever esse parágrafo e soube na hora que ela deveria ser citada exatamente aqui.

A velha guarda também pode ajudar na MPB de protesto enquanto estiverem vivos. Ao passo que nomes como Vandré retornam ao palco após 50 anos e surge a teoria de ele só cantar em estados de exceção, nomes como Belchior já partiram para a vida após a morte e surge a teoria de que ele é mais um da escola dos artistas que não morreram de verdade. O que eu senti para a música do Nando me vale também para Ok Ok Ok, do Gilberto Gil.

Mas uma coisa ainda me estranha muito nesses pontuais ensaios piloto da MPB de protesto da eventual ditadura. Elas são diretas. Não há a sutil crítica velada, de um cálice para se calar, do sonho com a volta da gente que partiu num rabo de foguete. Diretamente do covil do tucanato sertanejo, Chitãozinho e Xororó lançaram um We Are The World da política brasileira, se não fossem alguns nomes pontuais como Caetano, Gil, Ivete e Conká, eu diria que A Nossa Voz é uma colagem de trechos de famosos cantandos os jingles do Aécio em 2014. Adendo, pode ter sido o primeiro solo do Junior Lima em sua carreira.

É um pouco deprimente pensar o nível que o Brasil precisa chegar para sua arte refletir sua situação política. Dentro da minha leiguice, a música deveria ser um dos primeiros reflexos da situação nacional, e, se for, talvez o brasileiro esteja fazendo uma quantidade animalesca de sexo e, meio que consequentemente, sendo muito traído. Mas é de tristeza que se faz uma boa música, já diria aquele físico.
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