sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Introdução à Introversão



(Imagem: Pixabay)

Será que os linguistas já imaginavam que a língua se tornaria tão linguaruda? Veja, “não sou tagalerofóbico, tenho até amigos que são”. Tanto que estou lá, nos cotovelos salivados das rodinhas de conversa à multidão cotovelada do carnaval, aprendi a me adaptar. “comportadinho ele, né?”, dizia as vizinhas desde moleque, ainda por cima moleque criado por Vó. Aí ferrou, né? Estava ali sentenciada minha carteirinha de introvertido, embora só viesse a notá-la nos entremeios do fundamental. Ué, pode a criança não ser espontânea? À princípio, tudo parece vergonha: vergonha de interagir, vergonha de levantar a mão mesmo sabendo as respostas (até hoje não levanto), vergonha de se expressar.

Mas olhe lá o coleguinha, falante todo, popular todo, o centro das atenções... “Há algo errado no silêncio?”, pensava adornado em eterno barulho. A timidez – sempre ela – é o primeiro sintoma, às vezes é - às vezes não é - às vezes o simples achar que é basta para atrair sensações ruins. “Sua vez de se apresentar”, pense numa sentença horrenda capaz de desabilitar qualquer filho de Deus. Nessas horas, a ausência de autoconhecimento pesa e pesa muito. Quantos são introvertidos e não sabem? Quantos acreditam no correto como andar em motinho na cola dos pronunciadores de mais palavras por segundo? Ou pior, tornam-se aquilo que não são (ou pelo menos tentam). Por vezes já fui ultra-social a contragosto, por vezes já ignorei meu mundo interior, afinal é a vida lá fora que lhe oferece dinheiro, poder e relacionamentos. Quanto mais, melhor!

De fato, em muito aprendi com os extrovertidos, pois no fundo, no fundo, ninguém é só um lado da moeda. No entanto, uma hora torna-se insustentável manter identidades fictícias, saía do armário e compreenda que o processo – talvez – seja mais eficiente de dentro para fora. Em contrapartida, não é preferível reter-se em si mesmo o tempo inteiro e em caso de constipação use o laxante. “Nossa, quanta gente” – e sim, é difícil conciliar interações simultâneas, para isso existem os grupos pequenos, as esquivas necessárias e praças vazias. No passado, conforme lia meu manual de instruções, percebi que enquanto os sociáveis detinham para mais de cinquentas balas afetivas, possuía eu uns míseros cartuchos.

A depender do caso menos pode sim ser melhor, sobretudo se a visão perde nitidez à medida que o horizonte é ampliado. Virado ao avesso, o micro-mundo introspectivo se vale da aproximação, da conversa um para um com o outro ou consigo. “Você pensa demais!”, quase tudo é ponderado, detalhista, por isso são úteis os monólogos e momentos de solidão voluntária. Seja para curar a dita “ressaca social”, seja para compreender “onde é que eu errei mesmo?”. Em pouco tempo, conhecer minhas próprias células e inexistentes cédulas converteu-se em lei maior, como uma vez disse Sócrates: “conhece-te a ti mesmo meu pirraia que o resto se torna fichinha”.

Mas veja, é possível ter uma personalidade reservada e, ainda assim, ser sociável? É claro, e só depois das inconstâncias descobri que é possível dissociar o palco dos bastidores, e ai de quem permaneça olhando apenas o produto final e desentenda que ideias e ações nascem antes, bem antes, na esquina bucólica do tecido neural, na quietude do pensamento matinal. E nesse ponto, somos todos introvertidos em algum nível, apesar da cultura ocidental mal ver os burburinhos interiores.

Na condição de broto das brasilidades, a expectativa era de que florescesse o mais caloroso possível, uma fatia genuína da identidade nacional, afinal somos um povo comunicativo, o povo povão receptivo. Entretanto, quantos apreciam somente os estímulos externos mas se privam dos próprios? Quantos se enxergam apenas pelo filtro da câmera ou opiniões alheias?

A autocompanhia é o palanque da autocrítica e do autoconhecimento, portanto não fique aí autoimóvel, introverta, introverta! Não há egoísmo algum em ser sociável consigo de vez e quando. Mas calma, não é preciso fazer voto de silêncio budista ou deixar de ir ao show do Wesley Safadão. Introverta quando puder, um tantinho só... afinal de contas, você pode se surpreender ao se encontrar dentro de si, acredite!




Comentários

0 comentários :

Postar um comentário