terça-feira, 20 de novembro de 2018

Há 42 anos, um homem tinha uma Alucinação


Foto: Agência Brasil
Atemporal, os dicionários definem como o que não pertence a um tempo específico. Buscando um exemplo para significar o termo, podemos nos deparar com um álbum quarentão que parece ter todas as letras pensadas para o momento atual. Esse é Alucinação, segundo álbum de Belchior, em 1972, quando o Brasil ainda era tricampeão de futebol e presidido por Médici. O LP tem dez músicas, e podemos dizer, sem medo de errar, que dos maiores sucessos da carreira do cearense, ao menos seis vêm daí.

Alucinação não se encaixa nos dias atuais apenas pelas letras. Belchior sempre fugiu dos padrões da música, com uma sonoridade inusitada e uma maneira única e exótica de cantar. Podemos chamá-lo de um eterno vanguardista. A voz rasgada e rouca, às vezes descompassada da música, sempre se faz presente, com suas interpretações emotivas e profundas. Não é difícil dizer que Belchior é só pra quem gosta, um caso de amor ou ódio.

As letras de Alucinação são muito mais textos que composições. As estruturas narrativas estão presentes e , ainda assim, as músicas não são odisseias homéricas como ‘Faroeste Caboclo’ ou ‘Infinita Highway’. A força da juventude e a exaltação do novo aparecem quase sempre. O pensamento latino suplanta o brasileiro. As críticas à ditadura hoje se tornam críticas à ultradireita.

Nesse conturbado momento atual da política nacional, uma música se tornou um hino não-oficial da resistência, ‘Como Nossos Pais’. Eternizada mais tarde na voz de Elis Regina, a música foi lançada originalmente em Alucinação. A letra critica o regime militar, falando de sobrevivência, tortura, crise econômica e da relação passado-presente constante no álbum. Alucinação analisa o passado como um tempo remoto, velho e ditatorial e o futuro como uma esperança jovem de que tudo logo passará.

Outra música imortalizada por Elis é ‘Velha Roupa Colorida’, que trata de passado-presente através da dicotomia maduro-jovem, refletindo sobre amadurecimento, o abandono de práticas antigas que “não nos servem mais”. A necessidade de rejuvenecimento e a crítica ao “que era novo, jovem, e hoje é antigo” também se enquadra na postura política, se queixando sobre um regime que prometeria coisas diferentes, mas apenas entregou conservadorismo e velhas práticas.

‘Antes do Fim’ traz a esperança de um futuro melhor, mas sempre aliando à ideia do cuidado e do perigo, também presentes em ‘Apenas um Rapaz Latino-Americano’. Nessa, Belchior é o jovem interiorano sem importância ou dinheiro, levado pela ilusão-crítica-caetânica de tudo ser divino e maravilhoso. Ele critica pesadamente a censura e a violência do Estado, requerindo o direito de cantar, pois “palavras, são navalhas e não pode cantar como convém, sem querer ferir ninguém”. A amplitude dos cenários caóticos da vida atual se encaixa perfeitamente quando ele lembra que se na música parece ruim, “ao vivo é muito pior”.

O rapaz interiorano volta em ‘Fotografia 3x4’, crítica à xenofobia intranacional, com povo e Estado vendo “quem vem do Norte” como suspeito ou inferior. Em ‘Sujeito de Sorte’, Belchior volta à temática da superação da dor do passado, se considerando forte e sortudo, olhando para o futuro com um mínimo de esperança, “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”. Alucinação também tem sua função anárquica, em ‘Como o Diabo Gosta’. A contravenção às regras impostas são sinalizadas como protesto, enquanto os governos autoritários, como o próprio Diabo.

A música que intitula o álbum é mais uma crítica à situação social do país, alertando para os riscos que correm “um preto, um pobre, um estudante, uma mulher sozinha”. Além disso, alguns versos podem ser compreendidos como um ataque às, assim chamadas, esquerda universitária e ativismo intelectual. Ele não se interessa pela teoria, pela tinta no rosto, pela melodia ou pela utopia, mas sim na sua sobrevivência diretamente. O papel oposicionista volta a ser tratado em ‘Não Leve Flores’, em que ele alerta para não se “cantar vitória muito cedo”, colocando, pela única vez no álbum, o futuro como algo desconhecido, com a possibilidade de retorno de um “mal antigo”.

Deixo por fim, minha música favorita não apenas do álbum, mas de toda carreira de Belchior, ‘À Palo Seco’. Declarando abertamente que está desesperado e insatisfeito, ele reafirma sua identidade latinoamericana como o sofrimento de um tango, coloca sua sensação de descontentamento como padrão em 1976 e deseja que “esse canto torto” - tanto nas letras ferinas quanto na voz rasgada - “corte a carne de vocês”.

De alguma maneira, cada uma das dez músicas do álbum se encaixa com a oposição ao iminente governo brasileiro, Belchior talvez fosse um oposicionista 42 anos atrás. Se isso prova que ele era um bom vidente, que a história se repete em ciclos ou que “nossos ídolos ainda são os mesmos”, não temos como saber.
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